quinta-feira, 14 de julho de 2011

George e Mike

-George, não ganharemos desses alienígenas George... São Muitos. Sua nave-mãe ainda está controlando toda a atividade terrestre. Com o poder psíquico deles emitido por pulsações elétricas vindas da Pedra da Firgaw, situada no centro da nave, jamais conseguiremos vence-los. Eles simplesmente controlam a mente de todos George. Nosso abrigo não resistirá por muito mais tempo George. O que faremos George? O que faremos?

-Calma Mike. Acalme-se, meu bom companheiro. Temos que enviar o sinal para a bomba explosiva situada embaixo da nave. Mas para ela ser ativada, somente de muito perto. Sabemos que se tentarmos de longe, eles bloquearão o sinal de alguma forma.

-George.... Está me dizendo que então um de nós terá de se sacrificar, colocando a super roupa protetora que nos protege do poder psíquico deles, que não aguenta por muito tempo, para salvar a humanidade ?

-Sim Mike. Um de nós. E será eu! Você tem filhos Mike. Você precisa contar a eles nossa história. Precisa contar ao mundo como salvamos ele.

-George...Não!
-Adeus Mike!
-George, deve ter outro jeito!
-Adeus Mike!
-Adeus George ! Adeus meu único e eterno herói!


...


Olá garotas! Olá olá! Sim, sou eu o Mike... Nossa, mas vocês são muitas mesmo hein? O que, se eu quero? Sim, claro que sim! Nossa, mas vocês são..como eu poderia dizer...Liberais hein?-Hei George, tem mais garotas aqui para você também!

-Eu sei Mike, eu sei. Estava dando uma volta em minha Mercedez. Vamos garotas! Mike,pegue sua ferrari e vamos também.

-Sim sim! Ah, aliás, garotas...as bebidas estão aqui no porta-malas!

-Se for dirigir, não beba Mike!

-Ah George..Olha quem fala!

...

-Então você é o presidente a ALL-MIGHTY Company George? Nossa, 10 milhões por ano?

-Sim Mike, fora benefícios...MUITOS benefícios.

-Sei sei!Na All-Boss Company também. Engraçado..temos o mesmo salário!

-Vamos para Dubai?

-No meu jatinho ou no seu?

...

-Sim George, minha filha agora completou seu doutorado! E não namora ninguém! É só a linda filhinha eterna do papai!

-Ah Mike, Meu filho está láááá em Berlin terminando o Doutorado dele. Acho que eles podiam se conhecer né? Inteligentes como são...

-Como os pais sempre foram.

-Ah George!

-Ah mike!

...

Mike, por melhor que fosse sua habilidade discursiva, não sabia, agora, discursar. Era inverno. Era velho, era frio. Era triste.

Corpos se desfazem em elementos. Se tornam ar, terra, água...Quem sabe vida.

Mike, por mais teatros que tivesse visto, não sabia entender o Teatro do Fim. O Teatro da morte.

Apertava seu terno com força. Repetia as palavras.."Aqui jaz George". Sabia que seu velho amigo jazia em seu coração. Não queria chorar. Era forte. Era forte. Mas chorava. Mas chorava.

Aqui jaz George. Não importa quantos sonhos eles tiveram. Não importa quantas brigas aconteceram pelo xadrez de terceira idade. O sonho sempre os resgatava.
Dureza e dor de ver o frio, que consumia as árvores no inverno, agora silenciava seu amigo para sempre.
Do que adianta morrer de luta pela vida? Qual cargo paga um sorriso? Qual carro sabe dirigir sua vida a felicidade? Qual dinheiro paga pelos seus sonhos?

Há dias em que até Deus e o Diabo param de brigar. Os escravos pedem alforria. Ninguém se sente plenamente livre, evidentemente. Mas , por hora, se sente feliz ao ver um sorriso.

Ao ver um amigo. Ao segurar no peito. Não fora embora triste. Só olhou para as lembranças e sonhos. Era feliz? Era um bom amigo. E em algu lgar do mundo, eles estariam atrás das garotas, estariam jogando xadrez. Estariam rezando para que o mundo não acabasse.

-Ah George. Ah George

E o mundo não acabaria. E mundo seria salvo por eles. E eles seriam heróis. Grandes homens. Grandes heróis.

Ah George, Ah george!

domingo, 10 de julho de 2011

Tese

Na falta de um hospício maior, usou-se o mundo

Na falta de camisa de força, usou-se o amor

Na falta de um remédio, criou-se a história.

E na falta de coragem, criou-se a poesia

Que não achou espaço na sanidade.

E se tornou, por fim, loucura

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Nem todos os meninos gostam de aviões

E Carlos era pobre mesmo.

De alma, de dinheiro, de idéias, de vida, de palavras.

Lamentava-se:"Pobre de mim ó céus!"

E ia beber. Bebia, bebia e bebia.

Lamentava a mesma coisa novamente. Até dormir de tanto beber e acordar na escada de sua casa
Pobre Carlos, pobre Carlos.

Sim, possuía alguns traumas. Seu pai surrara-lhe muito. Sua mãe ria desse circo do inferno. Não se conformou Carlos com isso...nem por um dia. Não era palhaço para servir de diversão oras!

Possuía raiva também de sua ex-mulher. Dessas que te amam, te exaltam, te odeiam e te abandonam, tudo no primeiro olhar. Ela ria dele também. Lembrava-lhe de sua mãe. Ele sentia uma cólera, uma ânsia, uma tontura...Era covarde demais, o pobre Carlos. Não era bom em discutir e brigar. Era bom em resmungar, apenas.

"É Carlos! Mas o mundo ai fora não te dá salários gordos e promoções altas por ser bom em resmungar. Não tem doutorando em resmungar. Tem doutorando em ciências Carlos, não em resmungos. Resmungar é, em suma, uma merda."-Pensava ele. "Mas médicos resmungam também. O mundo resmunga. E eu só sirvo de palhaço para o riso alheio". Alheio. Carlos, que era pobre em palavras, agora viu que em seu repertório surgira uma palavra requintada, bonita, garbosa...Até inteligente.

Ia resmungar, não resmungou. Era pobre em tudo. "Não em palavras" "Não em palavras alheiamente alheias".-Pensava Carlos com um sorriso no canto da boca. Olhou para si mesmo, se imaginou sendo aplaudido na palestra mundial sobre coisas alheias. E sua reles inteligência se auto-alimentava. Descobrira no inferno que era sua mente, aquele lugar aconchegante, onde a sabedoria era sua amiga, as pessoas o verenavam, e era aquilo que sempre quis. Carlos deitou-se no sofá. Não era mais um perdedor. Não, não. Perdedores não falam palavras de alto nível. Não possuem essa dádiva. "Não são alheios"- Pensava Carlos. Agora era da elite da vida, do mundo, das palavras. Não havia mais choro. "Choro alheio"-Pensava ele com alegria. "Não há mais lamentações alheias".Agora, ele era Carlos. O Carlos. E o mais importante: Era só dele. Havia ganhado a si mesmo.

O que fazer agora? Carlos não era mais vítima. Carlos era poesia. Carlos não era mais gauche. Não havia anjo torto. Carlos se comparava agora ao próprio Carlos, o escritor. Era bom ser Carlos. Era bom...ser Carlos.

Afundou-se no próprio circo. Onde agora, domava leões, recebia aplausos, tinha respeito. E nós, e todos os outros eram apenas espectadores do grande Carlos. "O homem alheio", como se auto-entitulava. Era um César.

Naquela noite, Carlos não foi beber...
Na próxima, também não.
No bar, pessoas estranhavam a falta do maior frequentador.

Como vivera Carlos mais de 50 anos no puro medo, insignificância e desprezo próprio ? Era talvez o maior homem do mundo agora!
Agora não era mais esquisito. Não era um palhaço. Nem um menino triste. Carlos sabia disso tudo. Carlos era feliz. Agora...Era feliz.


....Pobre, pobre Carlos

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Verde como os olhos dela

E todo aquele charme que você sabe que não lhe pertence fica ali, no reflexo, a rir de você, e a dizer em voz muito alta o quão assassino você sempre foi. Cospe em tua honra, em teu mérito, em teu poema. E te lembra mais uma vez que estarás sempre fadado. Fadado à morte.

Começou com um simples chamado, sorridente, na sua porta, em um lindo domingo de verão. Uma carta, um telegrama, um recado. Tudo confuso, tudo rápido, tudo separado, em sua mente, e de repente, começa a se encaixar e formar frases inteiras sem vírgulas, visto que, elas, as pausas, não são mais parte, pelo menos agora, do seu cotidiano. Começa a ter um pensamento longo e despausado sobre uma vida séria e dura e dificil onde ninguém vai querer saber sobre algum probleminha pelo qual você eventualmente passou com sua parceira porque ela fez algo que o fez pensar bem sobre o relacionamento de vocês dois e... Isso já acabou. Isso é dádiva aos ociosos. Agora, tiram sua humanidade, sorrisos, amores e culto ao inútil. Afinal, probleminhas do cotidiano são inúteis mesmo. Principalmente agora. No caos. Na cegueira. Na nova visão. Na guerra.

Você foi de ônibus, com o cabelo raspado, com o corpo fardado e fadado a destruição. Com a farda verde refletindo medo. Com os olhos trêmulos. Com a cabeça raspada cheia de dúvidas, sonhos, cheia de segredos. E olhas em volta, e vês que todos, jovens, boêmios, sonhadores, cheios de poemas, cheios de mentiras e verdades, estão fadados ao mesmo destino cruel e triste. Discursos ébrios tentaram exaltar a pátria e diminuir seu medo. Evidente que nunca te convenceu.Você se vê fadado a apenas um lugar. Fadado à morte.

Um dia com cervejas caras, risadas, instruções do tipo "devemos-ganhar-do-inimigo-e-conquistar-o-território-dele-simplesmente-porque-ele-é-a-droga-do-inimigo", carregamentos de armas, gritos de guerra, mãos estendidas com orgulho da pátria.

Um dia no mato, sem comer. Um dia de chuva, sem se cobrir. Tiros aqui, tiros ali, e finalmente, um tiro em você.

Destruição, a palavra que só se usava em programas sensacionalistas, se tornou a ínfima realidade. Amigos mortos ou prestes a morrer.

Você dá um tiro. Um tiro ali, um tiro aqui. Você está se molhando com seu próprio sangue, e começa a comer mato por um dia. Mata um inimigo, um pai, um irmão, um filho. Não importa mais o que ele era. Tudo isso se tornou um cadáver em poucos minutos.

Mãos cortadas com raiva da pátria. Gritos de socorro, carregamentos de corpos, perdemos do inimigo. Cacos de vidro da cerveja cortam seu pé.

A guerra se tornou sua nova poesia. Sem métrica, sem decassílabos, sem medida nova nem velha. Só o verso livre feito de sangue. A sonoridade dos tiros, com corpos espalhados por todas as estrofes. Então, mais um tiro em você, e a poesia se torna quase que uma ópera. Você cai no chão. Não dá pra correr. Você olha para o verde da grama. Era verde como os olhos dela. Você se sente como no dia da ida à essa grande festa ensanguentada. Sente-se fadado à morte.

Acorda na enfermaria. Gritos ensurdecedores de colegas, sem muitos membros, clamando para que a miserocórdia de Deus os levem. Você é sortudo homem. Apenas 2 tiros. "Muita sorte" Diz uma patente alta. Você não quer dizer à ele que sorte seria poder morrer. Sorte seria não pisar nos cacos da cerveja. Sorte seria não estar na enfermaria que não cuida do que realmente dói. Não há remédio para a poesia que brota novamente em teu fraco pensamento. Você , no meio daquele lugar, vê o verde.
Vê o verde dos olhos dela. Talvez sorte seja estar fadado à morte.

Você, na chuva de um dos milhares de enterros, vê uma mulher abraçando a terra e gritando o nome de Deus para que a leve também. Lembra-se do filho dela, agonizando na enfermaria fazendo o mesmo pedido que a mãe. Haviam lhe ensinado sobre coragem, mas nunca ninguém disse do tamanho da coragem que teria de haver para alguém se desculpar para ela.

A senhora é só uma senhora. Só um número , só uma parte da estatística. Mulheres como ela servem para contribuir com os filhos, soldados inglórios da grande nação soberana. Novamente, fadados à morte.

Condecorado és. Medalha de honra. Pensão. Fotos com você. Ficastes famoso por teres ido até a terra-do-nunca com uma arma que não era sua, com uma roupa que não era sua, acabar com um problema que não era seu. E levar tiros por algo que nunca fez. Você sorri até, por um reles momento, dando uma gota de relevância à sua existência, mas tudo de que você consegue se lembrar é daquelas mulheres chorando em uníssono.

Sempre te falaram da coragem para lutar, mas nunca te falaram da coragem de ficar ao relento por 9 meses, vomitar, ter de tudo um pouco, só para ver uma criatura saindo de suas entranhas. E do nada, ver que ela com seu tamanho desprezível, sua mente incapaz, seu corpo indefeso e seus sonhos inexistentes, segura fortemente seu dedo com a mão inteira. Segura firme, segura com coragem. E aquele olho indefeso se abre, e olha para os seus, e não diz nada, mas não solta seu dedo. Aquele olho grande, cheio de curiosidade. Aquele olho que um dia irá tremer mediante a tanta morte, como tremeram os seus. Aquele olho que derramará lágrimas em um dia cinza, na ausencia de outros olhos que queria estar vendo. Aqueles olhos, que lembram os olhos dela, que eram verdes. E a mão firme que segura seu mindinho, um dia segurará firme aquele rifle, e matará aquelas pessoas.

Ninguém nunca contou da coragem de uma mãe que larga essa tão bela criação sua, 20 anos depois, para marchar contra um inimigo qualquer, por um motivo qualquer, pois não haveria motivo nenhum no mundo que justificasse o choro na lápide, os gritos de miserocórdias e a vontade de morrer também. E as mães gritam em seu ouvido que apenas queriam que seus filhos segurassem uma ultima vez seu mindinho com a mesma força de quando eram recêm nascidos e olhassem com aquele olhar grande, sem nenhum segredo, sem nenhum medo e sem nenhuma tristeza.

Você pega sua farda, se veste. Ela é seu último elixir da felicidade, mesmo que ridícula. Faz você lembrar de um único momento de orgulho que teves ao ser jovem.

A menina dos olhos verdes nunca mais voltou. Seus olhos permanecem, assim como todo o resto, inquietando sua mente. Como o choro das mães, e os olhares dos bebês.

Agora você está fardado, olhando para o espelho. Todo aquele charme que você sabe que não lhe pertence fica ali, no reflexo, a rir de você. A dizer em voz muito alta o quão assassino você sempre foi. Cospe em tua honra, em teu mérito, em teu poema. E te lembra mais uma vez que estarás sempre fardado. Fardado à morte.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Utopia

Nova utopia minha. Não é mais mundo próspero e companheiro. Sem problemas .

Minha grande utopia é não ter mais caneta. Nem lápis, nem teclado. E não precisar escrever enfim. Nunca mais.
Mas meus demônios não vão embora. Meus sonhos continuam longe. Talvez nunca passem de sonhos.

Como não tenho realmente nada em minha existência, não encontro o silêncio dos pensamentos. Então me vêm à cabeça milhões de teorias metafilosóficas contraditórias para explicar a realidade, me perturba e me faz, então, escrever.
Então, pelo jeito, essa utopia vai permanecer invariavelmente utópica.
Droga.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Pra não dizer que eu só falei das flores

Em mais um dia, em mais um lugar, em meio a milhões, ou simplesmente sozinhos, nós retomamos a nossa velha questão, metafísica, superfilosófica...Chame como quiser, mas creia que não passa de uma questão cotidiana. Uma questão , então, trivial.
A boa e velha questão da existência...

Por que raios eu existo?
Por que, ó céus, eu existo?
Por que a minha existência?

Engraçado é poder ver as milhões de respostas prontas, vindas de todo o lugar.
Uns gritam que é Deus. Uns gritam que é Alá. Uns gritam que é só uma vida das milhões de vidas que você já viveu.
Outros dizem que é acidente. Aleatório. Tanto podia ser quanto podia não ser.

Entao, tão concentrados em nossa indagação existencial, nunca paramos para pensar.

E se só você for o verdadeiro ser existente, e o resto for fantasia?
Esse blog é um pensamento seu, transfigurado em uma tela desligada de computador.
Seus amigos também não existem. Nem seus pais. Você vive em um hospício e criou uma realidade paralela.

Hollywoodiana demais essa intriga psicológica.

Ouvi isso e me intriguei também. Quem sabe com intrigas, minha existência não se torne só medíocre, e sim um pouquinho suportável.

Não sei se meus amigos, colegas, família, são só uma grande mentira.

Porque se o mundo fosse só eu...
Acho que um dia, eu acordaria da minha viagem de realidade paralela, e me depararia com um deserto
Só haveria deserto.
Nesse dia, eu olharia pro deserto. Andaria nele. Andaria nele até não poder mais.
Agora, sabendo que não há mais ninguèm pra apreciar, pois tudo foi fruto de minha insanidade.... Sairia a procura de algo.

Quem sabe de uma flor que me vislumbrasse ou uma melodia de vento que me conquistasse.
Tudo isso pra me contentar com a pouca beleza da realidade
E a música soaria baixinho em meus ouvidos enquanto eu apreciasse a flor.
E andaria novamente. E imaginaria estar no hall da fama, com meus amigos que nunca existiram.
Com a vida que nunca tive.
Com aquele alguém que nunca fui.
E com minha indagação de existência, que ficou pra trás.
Junto com o vento, junto com a flor.
Junto comigo mesmo

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Silêncio

Mais de mil toneladas.
Não minto. Mais de mil!
Vieram em forma de papel para minha residência.
Vindas de milhões de poetas de todo o lugar.
Todos tentando me convencer de que eram, por fim, os melhores poetas já existentes.
Capricharam na ortografia, abusaram (e como) da métrica e pra melhorar...
Falavam só de amor! Amor amor e mais amor!
Como se fosse algo pouco polêmico, pouco subjetivo...
Ou até para doer na carne...
Existente!
Querem o que? Que eu chore? Hein? Acham mesmo que escrever histórias em verso sobre algum jovem imbecil que se apaixona (tudo em malditos decassílabos!) tocaria meu coração e me faria chorar sobre as lembranças de uma juventude perdida, tendo por hora um momento nostálgico, dramático e epifânico? Ora, faça me o favor me morrer!
Poeta burro!
Ser um velho moribundo como eu nunca se tornou um programa solene e agradável, apenas recheados de boas lembranças. Ser velho tal como eu é uma maldição vinda das mais profundas profundezes do Hades!

Joguei todas as tentativas de poesia no fogo e acendi meu cachimbo, olhando longamente para a chama colorida, que queimava as tintas e os sonhos utópicos. Aqueci-me com o fracasso coletivo, dando um leve sorriso ao desgosto alheio.

Entre uma tosse e outra, olhei para o chão, e vi um poema que não havia tido o mesmo destino dos irmãos bastardos. Peguei-o com raiva, e como ele iria arder em pouco tempo nas chamas eternas de minha lareira, lio-o com rapidez.
Estava escrito : "O maior poema de todos os tempos..." Prolongou as reticências pela frente e verso da folha, escrevendo no final: "É o silêncio".
Olhei de novo, inspirando fundo. Remetia-me a Hamlet, é claro. Mas me deixou meio indignado...Por que alguém escreveria alguma babaquice dessas? Se bem que silêncio é meio poético de vez em quando... Pensei um pouco sobre silêncio. Lembrei-me do silêncio que fiz enquanto levava bronca, com 7 anos, após "aprontar" algumas. Ou do siléncio que fiz em meu aniversário de 12 anos, quando cortava o bolo.
Houve também o silêncio do funeral de minha tão doce vó, quando tinha 14.
Teve o silêncio que fiz quando ia dar meu primeiro beijo.
O silêncio que fiz curtamente antes de gritar "sim" no altar...

Também lembro do silêncio que fiz quando minha amada mulher estava deixando este mundo. Ela, que havia me ensinado a rir, a chorar, a amar, a levar a vida na brincadeira quando a seriedade se tornava inviável, agora estava em seu leito, com aquele silêncio tão misterioso e tão claramente óbvio.
Lembro-me que ela pediu para esse asqueroso ser humano chamado eu, para deitar ao seu lado. Fui. E fui em silêncio. E me deitei em silêncio. E fiquei em silêncio. Ela pediu para eu apagar a luz, e juntos, contemplarmos o silêncio.
No começo, eu estava em uma aflição que nem os deuses nem os homens poderiam sequer descrever. A aflição de querer dizer simplesmente tudo, tudo, antes que não desse mais tempo...E não poder.
Mas logo vi que o silêncio seria nossa única forma de nos entendermos completamente. Eu só via a escuridão, mas de alguma forma, o rosto dela aparecia claro pra mim, e sorria. Sorria o sorriso mais belo que alguém poderia sorrir. Ela enxergava minha dor, ela enxergava meu desespero, mas com o siléncio, ela dizia que estava tudo bem. E que tudo, mas tudo, iria ficar bem. E eu me acalmava.
Acalmei quando vi que palavras são deveras desnecessárias nessas horas.
Não queria nada de ruim para ela. Eu nunca havia amado alguém tanto quanto ela. Nosso relacionamento foi o maior clichê possível. Era aquele romancezinho de colegial que durara até os dias de nossa velhice. Era a loucura mais absurda de todas eu estar do lado dela sem falar nada. Com tanto desespero, ainda assim fui calado pelo silêncio. Que era minha única forma de lucidez. Que era minha única forma de saber que estava fazendo a coisa certa. E o silêncio, maldito silêncio....
Depois de alguns minutos, o silencio a levou embora...
Pra nunca mais voltar...
E eu fiquei sozinho... Em pleno silencio...
Uma lágrima correu em meus olhos depois de lembrar dessa história. Peguei o poema, amassei lentamente e joguei no fogo com uma serenidade maior. Lembrei que quando fico em silêncio, minha amada parece voltar, e somos felizes de novo. Ela sorri pra mim o sorriso mais lindo. E palavras são, novamente, dispensáveis.
Fim do meu cachimbo, olho para o fogo....
Não existe o maior poeta do mundo tampouco o maior poema.
Existe o maior silêncio.
Que é o meu.